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Colméia

LADRÕES
DE GRAVATA
-
O CONTO-
Depois
tem aquele caso do ilustre escritor desconhecido que um dia concluiu a sua obra
capital e lhe pôs o título mais bem bolado que imaginou durante muito tempo:
Ladrões de Gravata. Respirou aliviado, porque enfim via coroado o seu esforço
imenso.
A
obra tratava dos males que rondam este mundo e o outro, estribada nos postulados
da moral vigente, baseada nas premissas filosóficas dos maiores pensadores
vivos e mortos da santa madre igreja católica e romana. Terminando, depois de
altos e baixos como é compreensível em trabalho de tal monta, por um período-chave
típico: o homem não passa de um animal pensante.
Como
os livreiros não adivinharam de saída o nascimento da obra emérita, foi o
aludido escriba obrigado a procurar por eles e propor a impressão do livro.
Reservando de antemão os direitos autorais e outras formalidades de segurança
atinentes à defesa do seu patrimônio cultural.
Mas,
desgraçadamente, como se fosse um capricho do destino, teve todos os passos e
falas baldados. Aí, ante a negativa peremptória dos editores em dar a lume o
que chamavam pejorativamente de calhamaço, foi que o homem de letras menos se
abalou, como parecendo contar com a má vontade desses mercadores de literatura
e outras luzes. Então meteu ombros ao risco e despesa de imprimir por sua conta
a obra máxima de sua vida, já que era o principal interessado na sua divulgação.
Somente
por esse caminho cheio de perigos econômicos pôde ver nas mãos da opinião pública
e dos homens mais esclarecidos, em particular os que se dedicavam à crítica
literária, o seu grosso infolio. Com uma triste notação para começo, de
carreira só houve a esperada saída aos exemplares distribuídos gratuitamente.
Porque de compra e venda não teve qualquer aquisição. Ninguém se abalou de
sua comodidade para alcançar ainda nas livrarias aquela beleza de escritura,
dando em troca quatro magros cruzeiros. O que só fez o esforçado escritor
tirar uma lógica conclusão: os homens além de serem uns animais, são ainda
por cima umas cavalgaduras.
o
excelentíssimo publicador anônimo foi levado a saldar parte das dívidas
contraídas com a impressão, vendendo no quilo, miseravelmente, toda a edição
aos bodegueiros. Este melancólico fim das suas letras de inúmeras noites mal
dormidas e dias mal comidos, quase que o leva para a tumba. Intimamente desejou
desaparecer de uma vez deste vale de estúpidos. Porque não pode haver desolação
maior aos projetos de um intelectual honesto, piedoso e bem intencionado: ver
sua obra servir para embrulhar sabão nas vendas.
Claro
que foi a derradeira preocupação de sua existência. A ingratidão da espécie
humana é um fato inconteste.
A
incompreensão dos críticos e leitores é alarmante. A inveja e o despeito dos
semelhantes reinam livres na terra dos homens. O egoísmo é uma chaga bubônica,
sempre maior à medida que os tempos se passam.
Inexoravelmente
havia os empréstimos a pagar, os papagaios a resgatar, a honra pessoal a lavar
no envolvimento do seu nome. Que enfim lhe restava defender a limpeza dos seus
atos. Que mais tinha de fazer? Daí aquela incerteza que perdurou para a
eternidade no seu reto espírito: se não seria mais produtivo que as traças
comessem os seus pensamentos e teses; se não seria bem mais objetivo entregar
toda a sua obra à línguas de fogo implacável e espalhar as cinzas resultantes
aos quatro ventos. Embrulhar sabão, servir de instrumento no enriquecimento ilícito
de um vil bodegueiro, ignorante e analfabeto. Ah! Boa morte tarda!
Covardemente
optara pela última alternativa. Logo se convencendo de que se tratava de mais
uma perfídia do destino: os Ladrões de Gravata embrulhando sabão na quitanda.
Era o puro azar.
Trefegamente
a sorte ainda não dera sua derradeira jogada no drama. Acidentalmente o monte
de livros debaixo do balcão, aliás em perfeito estado de conservação, caiu
sob as vistas de um elemento bem mais bafejado do que aquele que obrara.
Instantaneamente lhe brilhou a estrela das boas idéias e ele se fez novo dono
dos papéis impressos a preço de banana.
Chamou
de imediato uma carroça e transportou a livrama para a primeira oficina gráfica
que havia na redondeza. E mandou fazer uma ligeira alteração no título do
tratado moral filosófico-literário:
Colocar
um acento agudo na última letra da palavra Gravata. O que transformou tudo como
num passe de mágica: a coisa passou a ser um apelido bastante sugestivo: Ladrões
de Gravatá!
E
num dia da grande feira na Cidade de Gravatá, Estado de Pernambuco, o audacioso
vendedor expôs livremente a sua mercadoria livresca. E pôs a boca a anunciar o
que queria vender:
-
Olha aqui o famoso livro Ladrões de Gravatá!
Foi
um reboliço na feira nesse dia. O camarada dos livros praticou uma verdadeira
subversão da ordem feirante. Os outros vendedores de tudo quanto era basculho
vinham olhar o livreiro. Os matutos paravam ao lado do encerado estendido no chão
e liam soletrando para os companheiros, o título da brochura:
-
La-drões de Gra-va-tá. Eita ferro!
Todos
balançavam as cabeças, desconfiados. Mas compravam. Ora se iam deixar.
Falar
dos ladrões de Gravatá era mesmo que queijo!
-
Me dá um seu Zé!
Em
menos de uma hora os livros tinham voado e o sujeito apurado seus bons cobres.
Tomando de imediato a seguinte providência: bater o pó do calçado e fazer
bunda de ema. Sem esperar pelo efeito da agradável leitura. E com a firme
convicção de nunca mais cruzar os pés na estrada de Gravatá.
Donde
a objetividade do ditado popular: bocado não é de quem o faz, mas de quem o
come!
CONTO DE VALTER PEDROSA, PUBLICADO NO JORNAL O OLHO, EM JANEIRO DE 1970,
EDITADO PELO GRUPO CULTURAL DOS PALMARES.
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